domingo, 30 de agosto de 2020

Resenha: Vagina, de Naomi Wolf























Título: Vagina
Autor: Naomi Wolf
Editora: Editora Geração
Ano de publicação desta edição: 2013
Número de páginas: 368
Onde encontrar: Amazon
Nota: 5 / 5 

Vagina é um livro bem abrangente que conta a história da vagina, entre outras coisas. Aborda os aspectos biológicos da vagina (portanto fala especificamente de vaginas de mulheres cis, e especialmente sobre mulheres cis que se relacionam com homens), e da parte da História humana que engloba a vagina (como era vista desde a antiguidade até os dias atuais).

"A forma como qualquer cultura trata a vagina — quer com respeito ou desrespeito, quer com cuidado ou agressividade — é uma metáfora para como as mulheres em geral são tratadas naquele local e naquele momento."

É importante deixar claro desde agora que o livro fala especialmente sobre vivências de mulheres cisgênero hétero, e a autora deixa bem claro que não irá falar sobre outras realidades, por que a única realidade que ela conhece, é a que está no livro. Seria injusto uma mulher cis falar de vivências trans, e também seria injusto uma mulher hétero falar de vivências lésbicas ou bi. Todas as pessoas que têm vagina, com toda certeza vão gostar bastante da parte biológica, por que explica a função de alguns nervos e de como os hormônios atuam no nosso corpo à partir da vagina.

É um sistema muito complexo, em que você se sentar de maneira errada pode barrar um nervo e fazer com que você não sinta mais tanto prazer. A própria Naomi teve que passar por uma cirurgia, pois, por causa de um desvio nos ossos das costas, um nervo bem importante estava travado, e ela sentia menos tesão e os orgasmos eram menos intensos. Então, você, pessoa que tem vagina, fique ligado nesse livro! É um conhecimento muito interessante de ter.

"Quando o sistema dopaminérgico da mulher é ativado — como acontece quando há a expectativa de ótimo sexo, um efeito que é aguçado quando a mulher sabe o que a excita e pensa sobre o assunto, fazendo-a ir atrás disso —, ele fortalece seu senso de foco e nível de motivação, e isso a incentiva a estabelecer metas."


E todas as mulheres irão amar a parte mais histórica do livro. Sim, sei que existem mulheres trans que não tem vagina, mas creio que essa parte histórica, sobre a vagina, também fala muito sobre como o mundo via a mulher em si. Ver como a vagina foi tendo seu significado modificado é fascinante. Entender como o cristianismo fez com que a vagina fosse de algo sagrado à algo sujo e imoral, e como o cristianismo também tem, em suas primeiras obras de arte, a vagina retratada, de forma mais "limpa" e menos óbvia.

O livro também conta com vários capítulos sobre Tantra, que é uma filosofia matriarcal. No livro fala somente sobre como o sexo e a vagina são vistos no Tantra, mas existe mais do que isso. Naomi entrevista pessoas que fazem Tantra, para saber como essa prática influenciou suas vidas. Ela chama a sabedoria do Tantra de "Dança da Deusa", em que o homem precisa praticar várias pequenas atitudes ao longo do dia, se quiser que a mulher tenha um sexo realmente satisfatório.

Algo muito interessante sobre sexo é que a autora sempre diz que sexo vai muito além de gozar. No Tantra, por exemplo, o parceiro ouvir a mulher, dar beijinhos ao longo do dia, dar abraços e demonstrar amor, torna a mulher mais "receptiva" ao sexo. E que o homem só deve penetrar a vagina quando a vagina o "engole". É um conceito que pode parecer estranho, mas o livro explica melhor. Basicamente, o sexo é focado na mulher e no que ela sente.

"O estudo de ressonância magnética do dr. Komisaruk mostrou que a estimulação genital (clitoridiana, vaginal e cervical) em mulheres acionava partes diferentes, porém adjacentes, do córtex e que essas áreas também estavam relacionadas a diferentes centros funcionais e emocionais."

E um parte muito importante do livro fala sobre estupro e agressão física, que partem principalmente de homens. Por isso, se você tem gatilho com esse assunto, não recomendo que leiam. Pode parecer algo óbvio para algumas mulher, principalmente para as que já tem algum estudo no feminismo e em leis de proteção à mulher, mas estupro NUNCA é sobre sexo, e sempre sobre destruição. Um homem não estupra por querer sexo e forcá-lo, e sim pela vontade de destruir.

"... a cada ano, 1,3 milhão de americanas podem ser vítimas de estupro ou tentativa de estupro”. (Um a cada 71 homens já foi estuprado, segundo o mesmo estudo)."























O livro fala sobre alguns dados científicos, principalmente focando na anatomia e na endocrinologia, e mostra que um estupro, além de machucar fisicamente a vagina, causa alterações hormonais gigantescas. Isso por que existem nervos na vagina que são responsáveis por enviar alguns sinais específicos ao cérebro, e esses nervos podem ser danificados no estupro, e literalmente fazer com que a pessoa tenha depressão ou síndrome do pânico por causas anatômicas e endócrinas.

"A vagina reage à sensação de segurança feminina no sentido que a circulação aumenta quando a mulher se sente segura; mas os vasos sanguíneos da vagina sofrem uma constrição quando ela se sente ameaçada. Isso pode acontecer antes que a mulher conscientemente interprete seu ambiente como ameaçador. Portanto, se você ameaça ou diminui continuamente a vagina em um ambiente universitário ou profissional, envia um sinal contínuo ao cérebro e corpo femininos de que ela não está segura. O estresse negativo aumenta."

Eu devo dizer que amei o livro. Como sou bióloga em formação, e já estudei anatomia na faculdade, algumas coisas foram mais fáceis para entender, e sinceramente, ler esse livro me acrescentou MUITO, e com certeza minhas aulas sobre sistema reprodutor "feminino" (não gosto da nomenclatura, não acho que seja válida para os dias de hoje, mas é a única que conheço) serão melhores e mais completas. É preciso dar às pessoas a informação correta e mais completa possível sobre seus corpos.

Fica aqui minha super recomendação de leitura. É um livro que considero sim essencial para mulheres cis hétero, e um livro que mulheres no geral irão gostar muito, assim como homens trans também irão gostar, principalmente pela parte mais científica, de saber o que pode ou não atrapalhar o prazer de forma biológica. Um aviso que devo fazer é que a Naomi é feminista liberal, que é a vertente do feminismo mais forte tanto nos Estados Unidos quanto no Reino Unido. Então em alguns momentos vai ter sim essa pegada de "mulheres podem e devem mostrar seus corpos da forma como quiserem", apesar de a autora ter um capítulo inteiro falando sobre malefícios da pornografia. É uma escolha sua ler, mas espero que leia, pois é uma leitura incrível!


quinta-feira, 27 de agosto de 2020

Resenha: Her Big Stuffing


Créditos de imagem à Amazon


Título: Her Big Stugging: Taboo Sex and Romance
Autor: Mis Begaving
Editora: Publicação independente
Ano de publicação desta edição: 2018
Número de páginas: 773
Onde encontrar: Skoob / Amazon
Nota: 2,5 / 5


Esta resenha é de um livro em inglês, portanto, as citações estarão em inglês!

Her Big Stufing é uma coletânea de contos eróticos. Vou ficar devendo a quantidade exata de contos, mas tem cerca de 50 contos. Os contos possuem assuntos diversos, desde que envolvimento com vizinhos, passando por sexo no exército e sexo com alienígenas. Devo dizer desde já que é uma coletânea de contos hétero.

Devo dizer que  é um livro que não sei se recomendo. Ele tem uns 15 contos que são muito bons, que tem um enredo realmente trabalhado. Uns outros 10 contos que tem o enredo clichê, mas ainda é bom, e o restante é pura repetição. Mocinha de 19 anos quer transar com o vizinho e cria um pretexto bem de filme pornô (que a gente sabe que não é real) para conseguir o que quer.

"A man with a healthy load is a man who is going places. It's mt job to get them there".

E claro que esse tipo de história pode funcionar para você, se você gosta, porém acaba se tornando cansativo ler 3 contos seguidos que tem a mesma história, só com personagens de nomes diferentes.

Então, se você vai ler, por exemplo, um conto por semana (e aí pode fazer um projeto de ler o livro durante o ano inteiro), eu acho que é um livro que vai te agradar muito. Eu li mais ou menos nesse ritmo, mas algumas vezes eu lia 3 contos em uma semana, e depois ficava algumas semanas sem ler. 

"My wet lips vibrate and tickle him and, at last, a real smile spreads across his face"

Não é um livro romântico, e nem poético. É sexo puro e cru, então só recomendo que leia se você realmente gostar desse tipo de escrita, sem floreios e bem direta. E também só recomendo se você tem um nível bom de inglês. Se por algum motivo você se interessa em saber palavras picantes em inglês, é uma ótima leitura de treino.

domingo, 23 de agosto de 2020

Resenha: O Jardim Secreto, de Francis Burnett



Créditos de imagem à Amazon

Título: O Jardim Secreto
Autora: Francis Hodgson Burnnet
Editora: Editora Dracaena
Ano de publicação desta edição: 2012
Número de páginas: 312
Onde encontrar: Skoob 
Nota: 5 / 5


Mary é uma criança que foi criada sem amor. Sua mãe sempre se importou somente em mantê-la viva, e como é uma mulher rica, sempre contrata as melhores pessoas para tomarem conta de sua filha. Mary vê sua mãe raramente, até que uma doença chega até a Índia, onde a menina mora, e mata sua família.

"Foi daquela estranha e repentina maneira que Mary descobriu que não lhe restava pai nem mãe, que morreram e foram levados durante a noite."

Mary, então, é mandada mara morar com seu tio na Inglaterra. Também é um adulto que parece não se importar muito com ela. Craven, o tio, perdeu sua esposa há uma década, e desde então é um homem extremamente amargurado e triste. E como sinal de sua profunda tristeza, ordena que o jardim que sua esposa mais gostava, seja fechado. Ao longo dos anos, os funcionários da imensa casa esquecem que aquele jardim existe.

Assim que Mary descobre sobre o jardim, se interessa muito por ele, e então, encontrar o jardim se torna uma missão. A menina chega na casa do tio com 10 anos, sem saber nem vestir a própria roupa. Só comia coisas refinadas e conversava com pessoas de classe. Ali, num casarão que fica próximo à um vilarejo, tudo que Mary tem são os camponeses e funcionários. A menina vai fazendo amizade com eles, com algumas outras crianças, e saem em busca do tão falado jardim secreto.

"E o jardim secreto florescia e florescia, e a cada manhã revelava novos milagres."

Que leitura incrível! Confesso que no início, com Mary sendo bem chata e mimada, eu pensei que não suportaria a leitura. Porém eu já vi esse livro com uma capa que tem mais crianças na capa, e por saber disso, decidi esperar até que os outros aparecessem. E como foi bom esperar! Li esse livro em três dias, o que para mim é algo bem rápido, e era difícil parar em alguns momentos.

Já deixo aqui a minha recomendação de leitura, para crianças que tem mais de 10 anos e para todos os adultos. É um livro que ensina muito sobre partilha, sobre cura interior, sobre dar mais valor ao que temos e principalmente de dar mais valor às nossas amizades e pessoas que amamos. Muitas vezes a gente briga com as pessoas que amamos, e pode ser que em algum momento não tenhamos a chance de pedir desculpas.

"Não acho que haja nenhuma necessidade de alguém sê rabugento, quando há flores e coisas desse tipo, além de outras tais como seres selvagens se espalhando por toda parte, fazendo abrigos para si mesmos ou construindo ninhos, cantando e soltando um gorjeio. Você acha que há?"

Algo que quero muito comentar é que a Mary perder os pais logo no início foi bem chocante. Quando ela vai para a casa do tio, ela nem sequer sente falta dos pais, por que nunca teve contato real com eles, quase nem os via. Ela sentiu mais falta da casa e de ser mimada pelas amas, do que da família. E em poucos momentos ela sente saudade realmente. É interessante ver isso,pois mostra que a criação que a criança tem, pode moldar sua vida inteira. Se isso não tivesse acontecido, Mary provavelmente seria mais uma mulher rica que desdenha dos pobres e acha que todos estão ali para lhe servir.



No livro tem algumas falas que podem ser interpretadas como racistas, já devo deixar avisado. Uma das amas que Mary "ganha" na casa do tio, diz que estava curiosa para ver Mary, porque achava que a menina era negra, e nunca tinha visto negros na vida. Apesar de ter me sentido incomodada com falas do tipo, eu tentei compreender que 1. essa mulher viveu a vida dela inteira dentro de um vilarejo e o mais longe que foi é a casa onde trabalha e 2. certamente negros não tinha muito acesso aos locais mais ricos da Inglaterra. Então tentei relevar, mas já deixo avisado.

É um livro com o qual eu me identifiquei muito em certos aspectos, como o amor pelas plantas. Não sou jardineira, mas as plantas sempre estiveram presentes na minha vida, sei mexer com plantas desde bem criança, porque sempre brinquei com terra e tudo mais. Ver um livro em que um jardim é o principal, o grande mistério e a grande beleza, foi uma coisa que aqueceu muito o meu coração.

"Quando eu era pequena, eu tinha uma mania muito peculiar de assistir o mesmo filme diversas vezes, tantas que chegava até mesmo a decorar as falas, cada detalhe de cada cena e todas as músicas, quando elas existiam." Palavras da autora, prefácio.

Também me ensinou e me relembrou de alguns valores, que a gente meio que vai perdendo enquanto cresce. De cuidar do que a gente ama mesmo quando ninguém vê, de se amar e se animar sozinho (afinal, em muitos momentos não vai ter ninguém para nos levantar) e de sempre colocar os laços, as amizades, em primeiro lugar.

É um livro que tem muitos ensinamentos, muitos valores, e que nos mostra alguns retratos de uma Inglaterra não tão glamorosa. Recomendo muito que todos leiam, com certeza é um livro que vai aquecer seu coração, te lembrar do que realmente importa, te levar à uma viagem pela sua infância e te fazer feliz por algumas horas.

quinta-feira, 6 de agosto de 2020

Resenha: O Livro dos Ressignificados, de João Doederlein

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Título: O Livro dos Ressignificados
Autor: João Doederlein
Editora: Editora Paralela
Ano de publicação desta edição: 2017
Número de páginas: 216 páginas
Onde encontrar: Skoob
Nota: 5 / 5 


O Livro dos Ressignificados é um livro de poesias, escrito pelo João, mais conhecido como @akapoeta no instagram. O João ficou super famoso com as poesias que postava, e elas resultaram nesse livro. 

"o coração
trens que saem do trilho são livres para irem aonde quiserem"

O livro reúne várias palavras ressignificadas de acordo com as experiências do autor. E como são experiências, num geral, que todos passamos em algum momento da vida, ou iremos passar, é muito fácil se identificar com o conteúdo do livro. E isso torna a leitura uma coisa muito gostosinha.

"rosa (s.f.)
rosas e amores, se não cuidados, murcham"


Nesta resenha irei colocar os fragmentos que mais gostei, ou seja, não são a poesia inteira. No livro encontramos poesias curtas, que são os ressignificados, que ocupam meia página, e algumas poesias grandes, que ocupam umas 2 páginas. As citações dos ressignificados vai parecer um dicionário, com s.f, s.m e v. Que são substantivo feminino, substantivo masculino e verbo, respectivamente.

"trevas (s.f)
é a irmã mais velha da luz.
é aquela que existe quando mais nada existe.
é a ausência do próprio nada"

Li este livro num momento em que estava triste. Não com algo específico, mas apenas triste. E foi ótimo. Foi como lavar a alma. Algumas poesias são sim tristes, mas sempre tem um fundo de esperança nelas e isso me fez muito bem. Então se você está num dia não muito legal e quer ler poesias gostosinhas, recomendo muito que leia O Livro dos Ressignificados.

"prioridade (s.f)
é o primeiro lugar da nossa agenda
(superlotada de coisas vazias)"

As palavras escolhidas para este livro são palavras bem chave, que todos conseguem se relacionar de alguma forma. E ao longo do livro também é legal perceber que, para a gente, tem sempre uma palavra que tem um significado tão especial e único, que nenhuma das definições do livro dão conta de tudo que aquela palavra significa pra gente. 

"riso (s.m)
esperto é o Falamansa, que aprendeu a rir à toa"

Esse foi um dos livros que mais me trouxe uma sensação gostosa, de gratidão e de felicidade por ter lido coisas tão lindas. A ponto de que quando eu terminei de lê-lo (li pelo app do kindle no celular), eu fiquei alguns minutinhos abraçada com o celular, agradecendo ao universo por um livro tão lindo. Sei que com certeza literatura não é unanimidade e vai ter gente que não vai gostar, mas eu super recomendo. 

"migalha (s.f.)
pequenos pedaços de algo que um dia foi inteiro. 
é o que não satisfaz, mas engana bem"

É um livro curto, a maioria das poesias não ocupam nem metade de uma página e com certeza da para ler rapidinho. Sei que tem algumas pessoas que não gostam de ler poesia uma atrás da outra, e para essas pessoas eu recomendo que leia umas 10 ou 15 páginas por dia, para ir digerindo as palavras.

"sardas (s.f)
são suas estrelas particulares,
 que fazem do seu rosto um universo"

Sabe quando você é adolescente emotivo, e vê uma coisa do tipo "meus pais não me entendem", e fica emocionado falando "é isso mesmo"? Eu senti essa emoção lendo esse livro. Vários resssignificados ressoaram no meu peito, conversaram muito comigo, e isso foi incrível. Recomendo que todo mundo leia. É um livro curto, com uma capa linda e um conteúdo precioso.











domingo, 2 de agosto de 2020

Resenha: As Alegrias da Maternidade, de Buchi Emecheta
































Título: As Alegrias da Maternidade
Autor: Buchi Emecheta
Editora: Editora Dublinense
Ano de publicação desta edição: 2018
Número de páginas: 320 páginas
Onde encontrar: Skoob 
Nota: 5 / 5



Algo importante para saber desde o início: o livro se passa majoritariamente num contexto igbo.

O livro começa com Nnu Ego correndo de algo. Não se sabe exatamente o motivo, e nem do que está está correndo, mas é perceptível que é urgente. Então o livro salta para o passado, e vamos conhecer a história de vida da mãe de Nnu Ego, Ona.

Ona era uma mulher livre e que sabia o quanto a liberdade é valiosa. Não se casou, pois prometeu ao pai que estaria sempre ao lado dele. O pai de Ona era um dos líderes daquela região, e era muito respeitado, um dos motivos que tornava Ona uma mulher tão respeitada também. Ona se aproveitou da influência de seu pai, e foi se tornado cada vez mais imponente.

"... ela era atraente a ponto de causar inveja, tinha uma aparência jovem e era confortavelmente rechonchuda, com o tipo de curvas que realmente caem bem numa mulher" _ Página 169.

Porém havia um homem, Agbadi que mexia com seu coração. Entre indas e vindas do destino, eles acabaram ficando juntos, e assim nasceu Nnu Ego. Porém, algumas coisas iriam tornar o nascimento dessa criança algo difícil. Agbadi de Nnu Ego havia sido ferido, e foi nessas condições que Nnu Ego foi "feita" (se é que me entendem). Ona não era casada, e sim uma amante. Isso não era algo visto como errado, já que era costume daquele povo que os líderes tivessem muitas esposas e muitos amantes.

Porém a esposa mais velha de Agbadi não suportou ouvir os gemidos de Ona durante o sexo, acabou ficando doente e morreu pouco depois. Pelo costume, cada esposa tinha uma empregada pessoal, e sempre que a esposa morria, a empregada devia ser enterrada junto, para continuar servindo à esposa do outro lado. Só que a empregada da esposa mais velha não queria morrer, e lançou uma maldição, dizendo que ela voltaria em pouco tempo e traria dificuldades para a família.

"Enquanto andava, a dor e a raiva competiam dentro dela; às vezes a raiva parecia ser mais forte, mas a dor emocional sempre vencia" _ Página 13.

E então, alguns meses depois, ela voltou. Nnu Ego nasceu e sua mãe, Ona faleceu. Como era filha de Ona, a amante preferida de Agbadi, Nnu Ego sempre foi mimada pelo pai, e pode decidir quando queria se casar. Como os casamentos eram em sua maioria arranjados, era raro que os noivos se casassem por amor, e na maioria das vezes se conheciam apenas dias antes do casamento.

"Cabia às filhas não causar confusão e aceitar serem usadas pelas famílias até serem transferidas para seus homens" _ Página 292.




























O comum era que em até 1 ano após o casamento, a mulher já tivesse um filho. Porém isso não aconteceu com Nnu Ego, e ela sabia que estava ligada à maldição. Nnu Ego sonhava em ter filhos, em ter uma família grande, mas não conseguia, e sua desgraça começou ali. Além do sonho frustrado, tinha que aguentar comentários horríveis vindos das pessoas e até mesmo da própria família.

"Não tenho tempo para desperdiçar minha preciosa semente masculina com uma mulher estéril" _ Página 47.

A maior parte do livro se passa durante o segundo casamento de Nnu Ego. Após o sonho de ter uma grande família não ter dado certo, ela resolveu se casar com outro homem, Nnaife. Saiu de sua aldeia e foi morar na cidade com um homem que trabalhava lavando roupas para um casal de brancos ricos. Era um homem que não exigia muito, pois ele próprio não tinha muito a oferecer.

"Os homens daqui estão muito ocupados em ser empregados dos brancos para poder ser homens" _ Página 73.

O livro é incrível. Além de mostrar um panorama mais histórico dos igbos na Nigéria durante os anos 1920 até meados de 1970. A vida de Nnu Ego foi sim difícil desde o ventre da mãe dela, por causa de todas as coisas cósmicas envolvidas. Tanto pela maldição, quanto por ela ser filha de uma amante do pai e mesmo assim ser a filha preferida. É uma vida marcada também pelo idealismo de quem uma mulher só se torna mulher quando pari. E também uma vida extremamente marcada pelo racismo. 

"E não somos todos de certo modo escravos dos brancos?" _ Página 168.

No meio do seu povo, Nnu Ego era uma nobre, filha de um grande feche e neta de outro grande chefe. Porém, vivendo no centro do país, na casa de um casal branco, Nnu Ego não era ninguém, era frequentemente humilhada e passava diversas dificuldades, por que seu marido precisava continuar trabalhando. Várias vezes durante o livro Nnu Ego ressalta as dificuldades que seu povo passou e continua passando por causa dos brancos, inclusive sobre a escravidão, que segundo ela, nunca terminou. Mesmo sem escravidão oficial, a escravidão continua às escondidas, e se modernizou. Não eram mais escravos oficiais, mas trabalhavam o dobro ganhando uma miséria.

O livro também faz inúmeras reflexões sobre a relação entre as mulheres. Em diversos momentos Nnu Ego é a chefe da casa, afinal, Nnaife trabalha. Então a relação dela com outras mulheres acaba sendo necessária para conseguir sobreviver, para ter alguém com quem conversar. Nnu Ego é uma mulher bem fechada, então dá pra perceber, ao ler, a tensão que muitas vezes ela sente por ter que depender de outras mulheres para fazer certas coisas.

"Só que quanto mais eu penso no assunto, mais me dou conta de que nós, mulheres, fixamos modelos impossível para nós mesmas. Que tornamos a vida intolerável umas para as outras. Não consigo corresponder a nossos modelos, esposa mais velha. Por isso preciso criar os meus próprios" _ Página 239.

É um livro incrível, daqueles que acho que toda pessoa preta, ou que se importa com a causa da negritude deve ler em algum momento da vida. Na história de Nnu Ego, na Nigéria, nós encontramos um pouco da nossa história enquanto pretos diaspóricos, e perceber essa conexão é algo bem valioso. Obviamente também recomendo que pessoas brancas, indígenas e asiáticas leiam este livro, mas creio que será mais emocionante para pessoas pretas. É isto. Leiam esse livro, é simplesmente incrível, emocionante, e muito enriquecedor.

quinta-feira, 25 de junho de 2020

Resenha: Riacho do Jerimum de Jadna Alana

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Título: Riacho do Jerimum
Autor: Jadna Alana
Editora: Editora Coerência
Ano de publicação desta edição: 2019
Número de páginas: 400
Onde encontrar: Skoob
Nota: 4,5 / 5


Caíque é um jovem negro, que mesmo vivendo com sua mãe e sua irmã mais nova, se sente muito solitário. Caíque sabe que seu pai desapareceu quando ele nasceu, e se culpa muito por isso, a ponto de não se permitir ser feliz, sempre remoendo esse sentimento de que ele ter nascido foi uma desgraça para sua mãe. E sua mãe parece pensar o mesmo, pois mesmo que não diga isso verbalmente, ela trata Caíque de uma forma muito rude, e raramente demonstra carinho. 

Riacho do Jerimum é um povoado que fica na Paraíba, portanto, é recheado de cultura nordestina, principalmente da cultura nordestina dos interiores. Algumas coisas, principalmente as festividades, são encontradas aqui em Minas Gerais também, principalmente nas cidades rurais. 

O único amigo que Caíque tem é Vicente, um senhor bem idoso, que é muito sábio e sempre tem os conselhos certos. Desde quando Caíque era criança, os dois se veem sempre, e a diversão acontece quando Seu Vicente conta histórias, sejam elas histórias de sua juventude, histórias do Riacho do Jerimum, ou histórias mágicas.

"O tom de sua voz era sepulcral, como se aquela pergunta fosse o gatilho para sua morte."

Uma dessas histórias deixa Caíque bem intrigado, e por vários dias ele fica pensando em tudo que Vicente falou. Há muito tempo, no Riacho do Jerimum, houve uma grande guerra mística. Duas Deusas, Amanaci, Deusa da chuva, e Tifana, Deusa da seca, entraram em conflito. Uma grande seca tomou conta de grande parte da Paraíba, até que um acordo foi feito. Cada uma reinaria por 6 meses do ano. 

Porém as coisas parecem estar mudando. A chuva já deveria ter chegado, e as plantações estão começando a morrer. O maior medo da população é que os animais comecem a morrer também. Caíque não sabe muito bem como, mas sabe que de alguma forma ele está envolvido nessa guerra de Deuses.


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Gostei muito desse livro, de um jeito único! É um livro único, e não tem como negar isso. Ele mistura vários elementos, como a história e cultura paraibana, fadas, elfos, saci e caipora. Algumas pessoas aqui sabem que eu já fui parte de um laboratório chamado Kaipora, justamente por que tem essa visão de proteger a natureza, então eu amei a participação dessa personagem.

"Não se podia confiar plenamente naquelas criaturas, seus rostos belos escondiam a perversidade que havia em sua alma"

A fada protagonista, a que vai guiar Caíque nesse novo mundo, é Aurora, uma Calahyna. Todos os grupos de raças não-humanas correspondem ao que já conhecemos. As fadas são pequenas, delicadas, voam, e trabalham com energias da natureza. Os elfos são bons guerreiros, Caipora é uma guerreira bem nervosa, Saci tem apenas uma perna e ama aprontar com as pessoas. Então nenhum grupo é realmente uma novidade, mas creio que o fato de eles estarem inseridos num cenário paraibano, com Festas de São João acontecendo, torna tudo bem original.

"Os calahynos cultuavam a natureza e naquele momento celebravam por terem a terra para cuidar, as plantas para regar, o ar para respirar, o céu para contemplar"

Eu vou ser sincera com vocês: não me apaixonei pelos protagonistas. Caíque é sempre muito pessimista, sempre se culpa por tudo que acontece, e Aurora é muito orgulhosa, odeia perder e não pede desculpas. Sei que essa é uma fórmula muito usada em fantasias num geral, mas dentro dessa fantasia me incomodou um pouco. Principalmente por que existem personagens, como Vicente, que mesmo em meio ao caos, conseguem ser positivos e animar a história. A melhor amiga de Aurora se chama Diana, e é sem dúvidas a minha personagem preferida do livro. É alegre, sempre vê as coisas pelo lado positivo, mas não ignora a realidade que está em sua frente.

"Às vezes, sentia como se estivesse em uma dança infinita ao mesmo tempo em que sua alma se conecta com a energia da natureza"

Seu Vicente também é um personagem que amei. A sabedoria ancestral colocada em prática é incrível, os ensinamentos dele, os conselhos. É um senhor com quem eu amaria conversar. Todo o enredo da guerra eu achei incrível, amei as reviravoltas, o papel de cada personagem, como cada personagem foi importante de certa forma durante toda a história. A única ressalva na enredo que tenho, é na verdade uma fala, dizendo algo do tipo "os estrangeiros finalmente foram aceitos pelos nativos", e eu realmente não gostei. Estamos no Brasil, um país onde os estrangeiros mataram e continuam matando os nativos, é a pior frase pra se dizer à um indígena. Não sou indígena, mas sou descendente e honro muito o que corre nas minhas veias. Sei da luta, apesar de não fazer parte dela. mas eu não preciso ser indígena pra buscar por coisas melhores para os indígenas, não é mesmo?

"Como os humanos têm coragem de violar algo tão sagrado como a natureza?"

Recomendo muito a leitura de Riacho do Jerimum. É um livro com muita fantasia, muita magia de uma forma natural, muito amor à natureza, muitos conselhos, muita luta, um pouco de drama romântico, e principalmente muita ação. Se você gostou dessa resenha, com certeza vai gostar do livro. Recomendo muitíssimo que leiam, que valorizem mais nossas fantasias nacionais com cenário brasileiro. E claro, que leiam mais mulheres

sábado, 20 de junho de 2020

Resenha: A Bruxa Não Vai Para Fogueira Neste Livro, de Amanda Lovelace




Título: A Bruxa Não Vai Para Fogueira Neste Livro
Autor: Amanda Lovelace
Editora: Editora Leya Brasil
Ano de publicação desta edição: 2018
Número de páginas: 208
Onde encontrar: Skoob
Nota: 4 / 5


A bruxa não vai para fogueira neste livro é um livro de poemas feministas. É o segundo livro de uma série chamada "As mulheres têm uma espécie de magia". Como o título do livro já diz, são poesias feministas focadas no fogo. Não necessariamente no fogo da Inquisição, apesar de sim ele ser citado em algumas poesias, mas no fogo, na ação, no fazer o que queremos por que temos força. 

Assim como o fogo, podemos começar até meio tímidas, demorar um pouco pra acender, temos inúmeras ameaças (desde chuva até falta de oxigênio), mas quando ganhamos força e sabemos para onde ir, podemos fazer uma diferença enorme no mundo de forma boa. Mulheres ganham força principalmente quando estão juntas, pois a luta juntas nos ensina mais sobre nós mesmas. Somos reflexos de mulheres do mundo, das nossas mães, tias, avós, das celebridades que escolhemos seguir no instagram. Então estar numa sociedade feminina, mesmo que seja só você e sua amiga, é algo poderoso, pois você se reconhece em algo, e a partir disso pode mudar, investir em algo, e enfim evoluir.

"alguns pais vão quebrar os dentesde suas filhas com dedos esfolados&quando o punho do seu namoradovier na sua direção ela vaioferecer a ele um sorrisocom o lábio aberto
'é igualzinho lá em casa',ela dirá."

Existem sim alguns poemas que não gostei, que falam que o batom vermelho é um grito de guerra, e ao menos 5 poemas que só funcionam pra você, se você for uma mulher branca. Também tem muita coisa de ódio aos homens, e se você acompanha o blog, sabe que eu não gosto desse pensamento. Homens de cor morrem por causa do feminismo branco que prega morte aos homens. Feminismo sem pensamento de cor/raça e classe não faz sentido, é só mais uma forma de supremacia branca. 

Ela também escreve poemas dizendo que misandria, o ódio aos homens, está indo longe demais e tirando o foco do que é feminismo. Afinal, o objetivo do feminismo é estabelecer igualdade, e não passar por cima do "outro lado". Ódio aos homens abre espaço para o racismo e para transfobia. O objetivo da luta por igualdade de gênero, especificamente falando da luta feminista como um todo, não é e nunca deve ser passar por cima dos homens. A luta é pelo respeito, para que mulheres sejam vistas como seres humanos, que tenham segurança de andar sozinha na rua, que tenham oportunidades de emprego e salário mais igualitários e que não sejam maltratadas apenas por serem mulher.

"lutar incansavelmente pelas suas irmãs& não se esquecer de oferecer a mãopara todos os empurrados tão para fora das margens do papelque estão balançando na beirinha- tem bastante espaço para todos nós."

É sempre importante ressaltar que existem lutas por igualdade de gênero que não tem ligação com o feminismo. Pelo simples fato de que o feminismo em si foi criado por mulheres brancas para mulheres brancas. Por isso, em boa parte dos países de maioria racializada, movimentos como o Mulherismo tem mais espaço. Mulherismo é um movimento criado por mulheres negras, para todas as mulheres, focando principalmente nos problemas de raça.

"fomos forçadas a passar por cimados fósforos ainda incandescentesque eles usaram para eliminarnossas ancestrais"

Também é interessante lembrar que o feminismo negro NÃO É uma vertente do feminismo clássico. É um movimento que tem outras pautas, e principalmente que coloca raça antes de gênero. Pois não importa se você for respeitada como mulher, se você ainda for chamada de macaca na rua, se você vai continuar morrendo por ser preta, se seus filhos e seu marido serão todos mortos pela polícia, se o segurança do mercado vai continuar te seguindo, se você vai continuar recebendo menos que mulheres brancas, se você vai continuar com medo de entrar na sua favela e levar tiro da polícia. Raça vem antes de gênero, e o feminismo negro é um movimento independente que entende isso, e foca nas pautas da negritude e em como elas são afetadas pelo gênero.


















Foi meu primeiro contato com a autora, e confesso que tive um preconceito inicial com ela. Motivo? Mulheres negras, indígenas e marrons foram mortas aos milhares na inquisição, e em comparação, foram poucas as brancas que morreram. Principalmente por que, mesmo tendo início em países com maioria da população branca, a Inquisição se alastrou por todo o mundo, e não foi diferente na África e na América.

Aqui no Brasil, muitas mulheres, principalmente negras e indígenas, foram mortas no tempo colonial. E foi um cenário que se repetiu em todo o continente. Então sim, eu tinha preconceito com a autora, por que num geral, mulheres brancas não foram mortas por serem bruxas. É uma herança que pessoas brancas de hoje podem ter? Sim. Muito provavelmente pessoas brancas de hoje tem um tataravó preto ou indígena. Porém isso não te torna herdeiro da bruxaria, então se for se chamar de bruxa, seja uma bruxa.

"queime todos os que tentarem queimar você.- 2° mandamento das bruxas."

Muitas mulheres brancas entendem que esse "ser bruxa" que tem ganhado espaço atualmente é figurativo. Acreditam que, como a bruxa é uma figura feminina sempre pintada de ruim e feia, nós nos afirmarmos bruxas é dizer que somos todas bonitas, MAS NÃO É! Ser bruxa á literalmente você investir suas energias fazendo feitiços em cada lunação, viver de acordo com as fases da Lua, saber a energia de cada planta e de cada pedra. E é claro que é um aprendizado, mas você só se diz bruxa quando você de fato sabe. Antes disso você é estudante ou aprendiz de bruxaria, apenas. Você é bruxa a partir do momento que pega o seu conhecimento sobre magia e coloca em prática na sua vida. Ser bruxa não é uma metáfora para nada, é um ofício.

"'vadia', cospe ele.'bruxa', zomba ele.& eu respondo:'na verdade, sou as duas.'- reividique tudo."

Quero dizer que hoje não me identifico mais com o movimento feminista. Ainda me identifico bastante com o movimento feminista negro, e creio que muita coisa ali vale super a pena ser vista. Só que também não é o suficiente pra mim. O feminismo negro não chega (e nem é objetivo chegar) nas mulheres indígenas e asiáticas marrons, e são questões importantes pra mim. E além disso, é preciso entender que existem muitas outras pessoas no mundo por quem valem a pena lutar. Eu luto pelas pessoas trans, sejam masculinas e femininas, luto por todas as mulheres racializadas e luto pelos homens racializados. O feminismo não comporta minha luta, e tudo bem com isso. Entendo a importância do movimento, principalmente nos que focam na intersecção de opressões e lutas. Ser uma mulher trans é totalmente diferente de ser uma mulher cis, por exemplo, e precisamos levar isso em conta. Não somos todas mulheres iguais.

Eu daria a nota 3,8 pro livro. Não acho que é realmente um livro nota 4, mas também acho 3,5 pouco. Resolvi arredondar pra cima então. É um livro que recomendo sim. No final, foi uma leitura que gostei de ter feito. Não culpo de forma alguma a autora por causa das coisas ligadas à raça, como o fato de que provavelmente as ancestrais delas não foram queimadas e as minhas sim. Mesmo de uma forma não perfeita, a autora levantou a questão dos incêndios que mataram mulheres, e da importância de termos fogo dentro de nós para sermos mulheres mais fortes. Sei que muitas mulheres, principalmente adolescentes e jovens, saíram dessa leitura com vontade de pesquisar mais sobre a Inquisição e que isso é muito valioso.

Recomendo a leitura desse livro, e se você for uma pessoa não-branca, eu sugiro muito que vá ler já sabendo que, como a autora é branca, tudo no livro parte do ponto de vista branco. Não tem racismo no livro, mas com certeza não contempla a história de mulheres não-brancas. Ela fala em uma ou duas poesias que para as mulheres de cor é tudo muito pior, e acho que ela citar isso já dá uma boa melhorada, no nosso coração de mulher não-branca, durante a leitura.

Amanda Lovelace com certeza foi a porta de entrada para a leitura, para diversas meninas e jovens. Creio que inspirou algumas pessoas a falarem sobre suas lutas, e à escreverem elas de maneira poética e ao mesmo tempo sincera. É uma leitura super válida, mesmo com todas as ressalvas históricas e sociais.





quinta-feira, 18 de junho de 2020

Resenha: A Princesa Salva a si Mesma Neste Livro, de Amanda Lovelace



Créditos de imagem à Amazon.


Título: A Princesa Salva a si Mesma Neste Livro
Autor: Amanda Lovelace
Editora: Editora Leya Brasil
Ano de publicação desta edição: 2017
Número de páginas: 208
Onde encontrarSkoob
Nota: 4,5 / 5



A Princesa Salva a si Mesma Neste Livro é um livro de poesias feministas bem focada na experiência da autora como mulher. Então mesmo se tratando de uma causa social, o livro não é sobre o feminismo, é sobre o papel do feminismo na vida da autora. Também é um livro de desabafo sobre o relacionamento dela com as mulheres da vida dela. Sobre o quanto ela odiou algumas mulheres e precisou passar por situações ruins para finalmente se curar sobre a mulher que ela é.

"ele prometeu me consertar&me deixou mais destroçadado que eu era antes- mas agora tenho ouro nas rachaduras"

Primeiramente ela fala sobre ela mesma. A relação que ela foi criando com quem ela é. E depois ela passa para as mulheres da vida dela, dando destaque à irmã e à mãe. O que acontece é que a irmã de Amanda se suicidou, e um mês depois sua mãe morreu de câncer. É algo pesadíssimo para carregar, para curar, para conseguir conviver. São duas tragédias que aconteceram uma atrás da outra, sem tempo de recuperação, e ela encontrou na escrita uma forma de aliviar a dor.

"filhos não devem morrer antes dos pais.eu não devia ficar mais velha do que minha irmã mais velha.era para sermos quatro irmãs, não três.você não devia ser uma das cinzas na mesinha de cabeceira da sua mãe.afinal de contas você era aquela que sempre brilhava.- destino é a porra de uma mentira"

Claro que em meio à tudo isso existem poesias mais sociais, mas o foco do livro não é esse. Tenho algumas ressalvas sim, como uma poesia em que ela diz "foda-se a cultura do estupro". Sabemos que as palavras têm muito poder de mudar as coisas, mas eu não creio que uma poesia com essa frase vai ser a nossa salvação. No máximo vai nos levar a discutir a cultura do estupro.

Uma coisa que quero ressaltar: a autora afirma que mulher é quem se identifica como mulher. Qual a importância dessa frase? É importante por que inclui as mulheres trans no debate do feminismo. Mulher trans não é menos mulher do que uma mulher cis. Mesmo se a transição de fato ocorrer aos 70 anos, ela não é menos mulher por isso. Vai sofrer opressão e machismo de uma forma totalmente diferente, mas não é menos mulher.

"se uma casa não é automaticamente um lar,então um corpo também não éautomaticamente um lar.- sempre me senti uma estranha na minha própria pele."

É um livro principalmente das dores que a autora passou por ser mulher: o ódio à outras mulheres no início, o incentivo a falar mal das outras, relacionamentos tóxicos, a perda das principais mulheres de sua vida e como ela se encaixa nisso tudo. É um livro de fácil identificação, mesmo se tratando de temas pesados. Talvez você não tenha perdido sua irmã, ou sua mãe, mas já perdeu uma amiga, uma avó, uma tia querida, e de certa forma você vai conseguir se relacionar mesmo sem isso tudo. A dor da perda não escolhe gênero, nós é que deixamos isso transparecer menos ou mais.



Uma coisa que eu quero destacar é a importância de ela dizer que, basicamente, depois que a pessoa menstrua, todos acham que têm direito sobre o corpo daquela pessoa. Você, que menstrua, já reparou nisso? Seu corpo pode continuar sendo o de uma criança, e não importa qual a sua idade, depois que você menstrua, as pessoas acham que podem te dizer o que fazer com seu próprio corpo.

"paus & pedras nunca quebraram meus ossos,mas palavras fizeram eu me deixar morrer de fomeaté você poder ver todos eles.- pele & osso."

Falando sobre algo pessoal, depois da primeira menstruação, aos 9 anos, as pessoas começaram a falar principalmente que eu já podia engravidar. Não no sentido de querer me forçar a desejar uma gravidez, mas que biologicamente era possível. É uma informação preciosa, mas sempre chegou até mim num tom bem errado. As pessoas me diziam isso como se eu, aos 9 anos, já tivesse que tomar um super cuidado com a minha vida sexual, por que agora eu poderia ficar grávida. Bom, aos 9 anos, isso só aconteceria se fosse forçado, e se fosse forçado, eu dificilmente teria poder o suficiente para parar o cara e pedir pra colocar camisinha.

É uma leitura importante e incrível! Creio que adolescentes, de 13-18 anos vão amar ainda mais ler esse livro, principalmente aquelas que estão conhecendo os movimentos sociais liderados por mulheres. É muito importante que a gente leia esse tipo de livro, que fale de um movimento de maneira pessoal, pois assim conseguimos ver melhor o efeito desse movimento social na vida individual de cada pessoa. Recomendo muito a leitura!

terça-feira, 9 de junho de 2020

Diário de Leitura - Sherlock Holmes #20 - The Resident Pacient




O conto de hoje é o The Resident Pacient. Vamos primeiro ao enredo do conto. Holmes e Watson saem, e quando voltam para a casa de Holmes, encontra um moço na porta. Esse moço, um médico, está procurando por Holmes, e precisa de seus serviços para um caso. Pai e filho desapareceram em seu consultório, e esse caso o intriga. 

Resumindo super o enredo (e fiquem tranquilos, não tem spoilers aqui), o pai tem catalepsia, que é uma doença que faz com que o corpo inteiro fique paralisado. A pessoa tem consciência, ou seja, continua acordada (se ela estiver acordada no momento da crise). Quando isso acontece com a pessoa dormindo, é comum que ela possa até mesmo ser dada como morta, já que não se mexe. Essa doença foi responsável por várias pessoas terem sido enterradas vivas. E por causa disso pai e filho vão ao médico.

Só que eles simplesmente somem, no momento em que o médico pede para que eles esperem um pouco. Holmes então assume o caso, e aí o enredo se desenvolve.

Gostei muito do conto. Daria uma nota 4.5  de 5. Não achei perfeito, então não daria nota total. Acho que é uma coisa bem óbvia para as pessoas que já leram os outros posts do diário, mas não me conecto com os personagens do Arthur Conan Doyle. Sherlock parece numa inteligência inalcançável pelo leitor comum (e é essa a ideia, então construção de personagem perfeita), e Watson me parece meio... não bobo, mas parece que ele se diminui para deixar que o Sherlock Holmes brilhe. Então nunca rola essa conexão com eles, e dificilmente acontece com os outros personagens, apesar de ter algumas exceções.

É um conto que recomendo, é super interessante, principalmente por causa da doença que o personagem tem.


domingo, 7 de junho de 2020

Resenha: Amoras de Emicida

Créditos da imagem à Amazon




































Título: Amoras
Autor: Emicida, ilustrações de Aldo Assayag
Editora: Editora Companhia das Letrinhas
Ano de publicação desta edição: 2018
Número de páginas: 44
Onde encontrar: Skoob
Nota: 4.5 / 5


Amoras é uma poesia sobre negritude. Fala muito sobre cosmovisões, citando Obatalá, o orixá yorubá criador do mundo. Diz que choramos quando nascemos por estarmos separados de Alá, tem ilustração de Ganesha.

O significado de amoras, é que o autor diz que as amoras pretinhas são as melhores. E isso é realmente verdade, as amoras mais escuras geralmente são mais doces. E aí começa a citação de figuras negras, entre elas, Zumbi. O autor diz que, vendo os negros de hoje, vendo a pureza das crianças negras de hoje, Zumbi sentiria orgulho.

E termina dizendo que, é bom ser pretinha, afinal, as pretinhas são as melhores. No final do ebook tem glossário explicando cada uma das divindades e pessoas citadas, o que é muito bom, já que nem todos conhecem mitologia yorubá, por exemplo. Se você se interessou, tem um vídeo animado dessa poesia. Vou deixá-lo no final da resenha.

Prints do livro em versão ebook.

Eu amei essa integração de fés. De a religião afro, a muçulmana e hindu estarem integradas como uma só, uma fazendo parte da explicação da outra. O fato de ser todo ilustrado certamente enriquece muito o livro e as ilustrações são incríveis, como vocês podem ver acima. Eu gostei muito da leitura. Além de levar menos de 10 minutos, é um poema que crianças negras precisam ter acesso. Para entender o quão lindo é elas serem negras, e o quão linda é a nossa cosmovisão.

Lembrando que não devemos categorizar os negros como sendo sempre de religiões afro-brasileiras, ok? Existem negros que seguem o candomblé, que seguem o catolicismo, que seguem o hinduísmo, que seguem o budismo, que seguem o islamismo e por aí vai. E é justamente isso que o autor quer passar: negros são plurais. 

Ainda dentro do candomblé (mas pode ser qualquer religião afro na verdade, umbanda, tambor de mina, bantu ameríndio etc) tem diversas nações. Alguns são de candomblé Angola, outros de Ketu (Yorubá, da Nigéria), outros de candomblé Jejê (de Gana) e por aí vai. Cada país da África tem uma cosmovisão, apesar de as três nações aqui citadas conversam entre si, mudando, no geral, apenas o nomes, já que cada país fala uma língua diferente. 

Recomendo muito que leiam essa poesia incrível que é Amoras, principalmente se você for negro. Se você tem um filho negro, compre o livro e mostre pra ele, ou ela. Vai ser uma experiência incrível. A criança se enxergar como personagem de algum livro é muito importante, pois afirma desde criança que ela pode estar em vários lugares.