quarta-feira, 11 de dezembro de 2019

Resenha: Instinto de Nacionalidade, de Machado de Assis


























Título: Instinto de Nacionalidade
Autor: Machado de Assis
Editora: Domínio Público
Ano de publicação no Brasil: 1873
Número de páginas: 8
Onde encontrar: Machado de Assis (MEC)
Nota: 5 / 5


Instinto de Nacionalidade é um texto de Machado de Assis, publicado no jornal O Novo Mundo. É um livro de crítica ao povo brasileiro, basicamente. Claro que é focado na literatura, mas como a literatura reflete o que está acontecendo no país, a crítica acaba sendo mais ampla. Machado escreveu numa época em que os livros eram sobre coisas cotidianas, envolviam política e ideais, então a crítica à literatura é também uma crítica do que estava acontecendo no Brasil naquela época.

Machado diz que estávamos vivendo uma adolescência literária, e eu achei esse termo simplesmente incrível! Ainda acho que não somos maduros sobre a literatura, que ainda dependemos muito dos outros. Não acho errado buscar inspirações de outros lugares, mas confesso que eu me irrito quando vejo livros escritos no Brasil, por brasileiros, totalmente inseridos na cultura estadunidense, e isso acontece muito.

Quem nunca leu um livro que se passa em São Paulo, que o nome dos personagens são Dylan/Dilan, Ashley, sobrenomes como Johnson e coisas do tipo. Qual é o problema com Amanda, Pedro, Paulo e Silva? Acho que a literatura brasileira ainda depende muito da produção literária dos Estados Unidos, da mesma forma como éramos dependentes da produção artística da França na época que Machado de Assis era vivo.

Nessa resenha vou comentar alguns trechos desse texto que me chamaram muita atenção, e que acho muito importantes de serem discutidos. As citações vão vir primeiro, e abaixo meus comentários sobre ela.

"Não se fazem aqui (falo sempre genericamente) livros de filosofia, de linguística, de crítica histórica, de alta política, e outros assim, que em alheios países acham fácil acolhimento e boa extração; raras são aqui essas obras e escasso o mercado delas."

Atualmente o Brasil produz muitos livros de cunho filosófico, e eu me sinto grata por estar vivendo um momento político tão caótico que está nos colocando pra pensar de verdade. Mas por outro lado, ainda temos pouca divulgação desses livros. Geralmente não são livros que conhecemos na escola, por exemplo. Os que eu li, a maioria apenas fragmentos, foram na faculdade, ou por que eu quis procurar. Mas de qualquer forma, sinto um avanço nessa questão.


"As tribos indígenas, cujos usos e costumes João Francisco Lisboa cotejava com o livro de Tácito e os achava tão semelhantes aos dos antigos germanos, desapareceram, é certo, da região que por tanto tempo fora sua; mas a raça dominadora que as frequentou, colheu informações preciosas e no-las transmitiu como verdadeiros elementos poéticos."

Espero que vocês entendam o peso da citação acima. Os brancos vieram, obrigaram os indígenas a adorarem um Deus estranho pra eles, mataram todos os indígenas que viam pela frente, e ainda tiveram a cara de pau de tentar tornar isso algo poético, colocando os acontecimento em suas poesias de forma a exalta sempre a pessoa branca. Além disso, fala sobre o genocídio em si, e eu espero muito que todos que estão lendo isso entendam o peso que um texto desse tem, tanto na época em que foi publicado, quanto agora.


"Não há dúvida que as línguas se aumentam e alteram com o tempo e as necessidades dos usos e costumes. Querer que a nossa pare no século de quinhentos, é um erro igual ao de afirmar que a sua transplantação para a América não lhe inseriu riquezas novas."

Essa é o último trecho que quero citar aqui. Linguagem é algo vivo, está em constante transformação. O português brasileiro de hoje não é como o de 50 anos atrás, não é nem o que era há 20 anos. Tudo se transforma. Português é uma língua linda, cheia de variantes, cada região tem palavras e expressões próprias e isso tudo deve ser admirado! Não precisamos produzir arte seguindo regras de linguagem, poetas marginais e poetas de interior escrevem como falam e fazem isso super bem. Precisamos valorizar as variantes linguísticas do nosso país!

Isso é tudo que eu tinha pra falar sobre esse texto maravilhoso. Recomendo que todos leiam, por que muito do que está acontecendo politicamente no país, hoje, é reflexo de coisas mal resolvidas de séculos atrás. Leiam também para se tornarem cidadãos melhores, e pra tirarem boas reflexões do texto.



quinta-feira, 5 de dezembro de 2019

Resenha: A Cada Passo da Vida, de Carol Alves





























Título: A Cada Passo da Vida
Autor: Carol Alves
Editora: Publicação Independente
Ano de publicação no Brasil: 2017
Número de páginas: 85
Onde encontrar: Skoob
Nota: 4 / 5


Liana é uma bailarina com um futuro promissor. Ama o balé, é uma das melhores alunas e pratica desde criança. Porém um acidente de carro muda tudo, e ela precisa desistir do sonho de dançar. A recuperação é lenta, Liana fica um tempo sem conseguir andar, depois passa a andar com ajuda de muletas, e por fim, passa a andar com uma bota ortopédica.

Em meio a isso tudo, Liana precisa se mudar de cidade por causa do emprego da mãe, se adaptar a uma nova rotina, à novas pessoas e lugares. Começa a estudar em uma escola nova, e acaba se dando bem com todas as pessoas de lá. Um dia, numa livraria, encontra um diário e o leva pra casa. Descobre que é de uma menina chamada Carol, e começa a lê-lo. 

Aos poucos, Liana vai percebendo que sua história de vida pode ajudar Carol de alguma forma. Carol tem câncer, e no diário escreve dizendo que odeia saber que sua família está triste por sua causa. Se sente culpada por ter câncer. E Liana vai tentar, de alguma forma, ajudar a menina que ela ainda não sabe quem é.

Gostei muito do livro. Em alguns momentos pareceu sim que era drama demais para um livro só, e por isso não dei nota total, mas foi uma experiência ótima. Gostei muito do fato de que na escola, Liana se deu bem com todo mundo. Mesmo em textos feitos para adolescentes, e protagonizados por adolescentes, não precisa ter rivalidade escolar, bem típica de filmes e livros destinados à esse público.

Tem uma pitadinha de romance, mas o tema central é superação. Tanto a superação que tem que partir exclusivamente da gente, quanto a superação vinda com a ajuda de outras pessoas. Algumas coisas Liana teve que passar sozinha, para que pudesse ajudar outras pessoas a passarem pelo mesmo. É um ebook maravilhoso, recomendo muito que comprem e leiam, pois com certeza vai te trazer alguma lição.









segunda-feira, 2 de dezembro de 2019

Leitura todo dia #123

Leitura todo dia! Esse post é sobre o projeto criado pela Nine Stecanella para incentivar a leitura. Minha meta com o projeto é sempre ler 35 páginas por dia. Como esse post tem duas semanas compiladas, a meta é ler 525 páginas. 

Minha meta, citando os livros, é concluir a leitura de A Cor Púrpura e dar o máximo de andamento possível à No Seu Pescoço. E começar Iaiá Garcia, ler o máximo que eu puder desse livro.












No dia dezesseis eu li 31 páginas de A Cor Púrpura da Alice Walker. Estou amando a leitura desse livro! É bem forte, tem muita violência, de todos os tipos possíveis, então quem tem gatilho com coisas extremamente machistas, como violência doméstica, não recomendo que leia. Tendo gatilho ou não, já aviso que as cenas são desconfortáveis. Agora que já cheguei estou no final, tá diminuindo, por que a história tá tomando outro rumo, mas assim, principalmente nos primeiros capítulos, é muito doído ler o livro.


No dia dezessete eu li 56 páginas de A Cor Púrpura e concluí a leitura desse livro maravilhoso! O final foi um pouco do que eu esperava, com um pouco de coisas que eu estava rezando pra não acontecer. Gostei muito da leitura, foi um dos melhores livros que li nesse ano, e com certeza é um favorito da vida. E uma coisa que fica bem clara no livro é: mulheres pretas, empodere outras mulheres pretas!

Li também 41 páginas (dois contos) de No Seu Pescoço. Especificamente os contos Fantasmas e Na segunda-feira da semana passada. No primeiro, um professor encontra um antigo amigo, que todos pensavam que havia morrido na guerra, e eles conversam. No segundo, uma babá contratada pelo pai da criança descobre a mãe da criança é pintora. A mãe fica o dia inteiro no porão, e quando finalmente sai, a babá fica encantada.


No dia dezoito eu li 7 páginas de História de Trinta Dias do Machado de Assis. Sei que existe uma versão, com esse nome e com muitas páginas, mas a versão disponibilizada pelo MEC só tem essas 7 páginas mesmo. Vou considerar como um texto lido! São crônicas bem humoradas sobre o que estava acontecendo no Brasil no final do século XIX.


No dia dezenove eu li 39 páginas do conto Fully stuffed, de uma coletânea de contos eróticos chamada "Her big stuffing". Os contos são em inglês. Eu fiquei sem energia em casa, e essa era a única coletânea de contos que eu tinha baixado no app do kindle no celular. Então li esse, e também li 30 páginas de Without protection. Em termos de gosto, eu preferi o primeiro. Nele a protagonista conhece uma "sociedade" que se reúne pra fazer sexo. No segundo, a protagonista do conto transa com o vizinho que é mais velho, basicamente.

E li também 13 páginas (dois capítulos e meio) de Iaiá Garcia. Olha, confesso que pensei que o livro seria mais animado. Vi várias pessoas falando bem dele recentemente, inclusive a Nine Stecanella, mas, pelo menos nessas primeiras páginas, não achei nada de muito bom no livro. 


No dia vinte eu li 11 páginas (um capítulo e meio) de Iaiá Garcia. No dia vinte e um eu li 4 páginas  (um capítulo) de Iaiá Garcia e 5 páginas de No Seu Pescoço. Comecei a ler ele na aula de embriologia, por que foi só apresentação de seminário, e nem todos os temas me interessavam de verdade. Mas chegou um momento que meu cérebro simplesmente cansou, e parei de ler haha.


No dia vinte e dois eu li 15 páginas do conto Jumping Monkey Hill do livro No Seu Pescoço. É um conto sobre escrita, em que a personagem vai pra um resort participar de um concurso. Tem gente de muitos países africanos, e isso é muito interessante. Cada país africano tem uma cultura, e é um conto ótimo pra mostrar isso.


E por fim, li algumas fanfics. Vou citá-las e colocar o link pra elas no nome delas. É só clicar pra ler. Todas elas são sobre SHINee. Lembrando que, segundo algumas pesquisas, cada página de livro no tamanho A5 (tamanho de livro normal) tem em média 400 palavras. Foi isso que usei pra colocar a quantidade de páginas lidas.

Inspired - 3 páginas




No dia vinte e três eu li 7 páginas (um capítulo e meio) de Iaiá Garcia. O livro até está ficando mais legal, mas eu simplesmente perdi o tesão de ler. E nem de ler ele, mas de ler qualquer coisa. No dia vinte e quatro eu li 15 páginas (três capítulos) de Iaiá Garcia. Agora o livro está realmente ficando bom. Quem for ler, depois dos 30% o livro melhora.

E li também 3 páginas de uma fanfic do Onew, escrita pela Gaby Brandalise. Clique aqui se quiser lê-la pelo twitter. Ela tinha feito a fanfic, originalmente, pelos stories do instagram, e depois postou no twitter.












Nos dia vinte e cinco e vinte e seis não teve leitura. No dia vinte e sete eu li 14 páginas (dois capítulos) de Iaiá Garcia. E li 4 páginas de uma fanfic chamada No Manners. Odiei o jeito que a narrativa foi construída, essa coisa de ficar colocando os nomes dos personagens antes das falas, como num teatro. Eu acho que os personagens TÊM que ser diferentes e que o autor tem que conseguir deixar isso claro sem precisar deixa explícito quem tá falando. Mas se você gosta de erotismo, a parte erótica é ótima!



Nos dia vinte e oito e vinte e nove não teve leitura, novamente. No dia trinta eu li 19 páginas (dois capítulos) de Iaiá Garcia. Queria concluir a leitura, mas acabei preferindo escrever. Inclusive foi o dia em que eu coloquei o primeiro capítulo do meu livro no Wattpad, clique aqui para lê-lo!



Li 339 páginas nessas duas semanas, o que dá a média de 22,6 páginas diárias.

Coloco aqui uma errata sobre as contagens das semanas anteriores. Eu esqueci de anotar dois dias de leitura, e acabei não colocando eles aqui no blog. Mas quero dizer que eu li, em novembro 828 páginas, o que dá uma média de 27,6 páginas por dia. Não alcancei a meta, mas gostei das leituras que fiz, e recomendo todas. 



A Cor Púrpura - 87 páginas lidas Concluído
História de Trinta Dias - 7 páginas lidas Concluído
Fully stuffed - 39 páginas lidas
Without protection - 30 páginas lidas
Jealousy and Seduction - 4 páginas lidas Concluído
Inspired - 3 páginas lidas  Concluído
Guilty Pleasure Dungeon - 18 páginas lidas Concluído
No Manners - 4 páginas lidas Concluído
Fanfic da Gaby Bradalise - 3 páginas lidas Concluído
Iaiá Garcia - 83 páginas lidas
No Seu Pescoço - 61 páginas lidas





domingo, 1 de dezembro de 2019

Resenha: Tartarugas Até lá Embaixo, de John Green





























Título: Tartarugas Até lá Embaixo
Autor: John Green
Editora: Editora Intrínseca
Ano de publicação no Brasil: 2017
Número de páginas: 272
Onde encontrar: Skoob
Nota: 5 / 5



Tartarugas Até lá Embaixo é um romance de John Green. Aza Holmes, a protagonista, tem ansiedade, que em alguns momentos se torna crises de pânico. Isso faz com que várias coisas na vida dela sejam diferentes, e com que ela evite várias coisas. Aza fica ansiosa principalmente quando o assunto são germes, ou seja, bactérias, vírus e fungos. 

Quando criança, machucou a ponta de um dos dedos, e nunca deixou o machucado cicatrizar, pois o alívio para a sua ansiedade é sempre ver que o machucado está novo. Com o machucado estando novo, o risco de ter bactérias lá dentro e, com a cicatrização, elas irem pelo corpo, é menor. Então Aza fica abrindo o machucado, diariamente, para ter certeza que nenhum germe está fechado em seu corpo. E para isso, sempre que abre o machucado, passa álcool e coloca um novo band-aid.

Sua melhor amiga, Daisy, é super fã de Star Wars, e escreve uma fanfic amorosa de Rey e Chewbacca.  Aza vive apenas com sua mãe, pois seu pai morreu quando ela era criança. Quando era criança, Aza conheceu um menino muito rico, que morava perto do rio que fica atrás da casa dela. E depois de ter crescido, ela percebe que precisa voltar a falar com o menino, Davis. Ele já foi um dos crushes de infância de Aza, e por isso, voltar a falar com ele, no início, é difícil, sabendo que muito da motivação é a recompensa em dinheiro.

"Ele: Tá por aí? Eu: Sim. Quer falar no FaceTime? Ele: A gente pode se ver no mundo real? Eu: Pode, mas não sou uma boa companhia no mundo real. Ele: Eu gosto de você no mundo real. Que tal agora? Eu: Ótimo. Ele: Traz o casaco. Está frio lá fora, e o céu está limpo"

Acontece que o pai desse menino foi descoberto pela polícia como um grande criminoso, e quem tiver qualquer informação relevante sobre ele, vai ganhar muito dinheiro como recompensa. Daisy quer o dinheiro, e como Aza conhece o filho desse homem, Daisy enfia Aza no meio dessa história, e juntas começam a investigar da maneira como podem.





























Algo que devo dizer é que esse livro me deu ansiedade. Eu já tenho ansiedade e síndrome do pânico, e mesmo não estando em época de fragilidade quando li esse livro, em alguns momentos eu fiquei bem incomodada. E pra piorar, durante a leitura, eu bati o dedo numa mesa na faculdade e cortei, e a todo momento que a Aza mexia no machucado do dedo dela, eu mexia no meu. Então não é um livro que recomendo pra todo mundo. Se você tem ansiedade e já está vivendo uma fase super ansiosa da sua vida, evite.

"O que eu quero saber é: existe um “eu” que não depende das circunstâncias?

Eu gostei muito do livro pelo fato de ele trazer uma personagem com ansiedade, e que mesmo com todas essas coisas que interferem na vida dela, como ela morrer de medo de hospital por causa das bactérias, ela tem uma vida normal. Ela frequenta a escola, ajuda a mãe em casa, tem paixonites, tem uma amiga que sempre tá junto, briga com a mãe e com a amiga (assim como todo adolescente) e está confusa com vários sentimentos. O que faz o livro ser tão lindo, são as aventuras que Aza vive, e viver a vida vai muito além de ter ansiedade ou não.

Aza é uma adolescente normal, que tem a peculiaridade de ter ansiedade. Ansiedade deve sim ser vista como algo sério, tem que ser tratado com tratamento psicológico, e se precisar, psiquiátrico, mas ansiedade não é um bicho de sete cabeças. Ficar perto da pessoa ansiosa não vai te tornar um ansioso, não vai piorar ou estragar a sua vida, e principalmente, o preconceito com essa pessoa só vai fazer mal.

"Fui passando de foto em foto, nos vendo rejuvenescer. Minha mãe num triciclo minúsculo segurando uma Aza pequenina nos ombros; eu tomando café da manhã, o rosto todo sujo de açúcar e canela. As únicas fotos em que meu pai aparecia eram selfies, mas os celulares da época não tinham câmera frontal, o que impedia um enquadramento preciso. As imagens inevitavelmente saíam tortas e cortavam algum pedaço do nosso rosto, mas pelo menos eu sempre saía, grudada na minha mãe — eu vivia agarrada com ela"

Se você é uma pessoa com ansiedade, procure algum tratamento. Procure tratamentos energéticos e espirituais, com certeza vai te fazer bem! Ou procure tratamentos convencionais mesmo. Se você convive com um ansioso, apoie ele, dê total apoio pra que ele corra atrás dos sonhos e projetos, e sempre repita para ele que tudo vai ficar bem. Essa simples frase clichê pode mudar o dia da pessoa. E sendo uma pessoa ansiosa, ou convivendo com uma, lembre-se sempre de que abraços resolvem muita coisa!

Recomendo super a leitura, é um livro incrível, principalmente para perceber que pessoas com transtornos psicomentais podem ter vidas muito boas. Apenas não recomendo para pessoas que tem gatilho com alguma das coisas descritas aqui. Se caso quiser ler, leia apenas em momentos bons, evite o livro em momentos de fragilidade. Aos demais, e aos que estão em momentos bons, leiam, com certeza você vai tirar algum ensinamento do livro!




sábado, 30 de novembro de 2019

Do mês: Novembro / 2019

Frase do mês
"そばにいるよ、ずっと". Estarei ao seu lado, sempre. Frase da música From Now On, do SHINee.


Música do mês
Hallelujah, do Jonghyun. Tudo que esse homem fez é perfeito, recomendo qualquer música. Mas essa aqui... nossa senhora, isso evoca uma sensualidade que é quase um crime ouvir essa música.


Série do mês
Big Mouth. É animação, tem muita putaria, tipo muita mesmo. Fala sobre crianças entrando na puberdade, então é muita putaria MESMO. É uma série da Netflix.


























Canal do mês
Gaby Brandalise. E acho que tá bem nítido que voltei a ouvir kpop, ne? É isso mesmo! Não sei se vou falar muito disso aqui no blog, mas certamente falarei disso no canal e nas minhas redes sociais. A Gaby fala sobre kpop, mas também fala muito sobre escrita, e por causa desses vídeos, até comecei a escrever um livro!


Livro do mês
A Cor Púrpura, de Alice Walker. Uma mulher preta falando sobre uma mulher preta.



Inspiração do mês
Kim Jonghyun. Ele foi o que mais me inspirou, e agradeço à Deus por isso.


Foto do mês
A filha de Oxóssi quando tá no mato não quer guerra, ne?





quinta-feira, 28 de novembro de 2019

Resenha: Helena, de Machado de Assis

























Título: Helena
Autor: Machado de Assis
Editora: Domínio Público
Ano de publicação no Brasil: 1876
Número de páginas: 139
Onde encontrar: Skoob
Nota: 5 / 5


Helena é um romance de Machado de Assis. O pai de Estácio morre, e deixa um testamento dizendo que tem uma filha bastarda, Helena, e que ela deve ir morar na casa da família e receber todos os direitos que tem como filha. Dona Úrsula, tia de Estácio, não concorda com isso, recebe a menina com mau gosto e de início, faz o possível para que Helena se sinta mal e saia dali. Úrsula tem medo que a reputação da mãe da menina (que nem se sabe quem é), manche o nome da família.

Helena é uma jovem muito bondosa, trata a todos com muito amor e carinho. Dona Úrsula certo dia fica doente, e quem vai cuidar dela com afinco é Helena. Durante esse período, Helena também estreita laos com Estácio. Começa a passear com ele à cavalo, mostrando que sabe muito bem como domar o animal, e conversando sobre sua vida atual com o meio irmão.

"Não será amor como você quisera que fosse, mas é o amor que ela lhe pode dar, e é muito..." Página 63

Após o período de doença, Úrsula começa a ver Helena com outros olhos, e vai entendendo que, mesmo que a reputação da mãe da garota seja ruim, Helena não é sua mãe. Helena é uma mulher inteira, completa em si mesma. E em vários momentos ela vai fazer questão de mostrar que ela é uma mulher decidida, que não aceita injustiças, e que sempre resolve as coisas com amor, da melhor maneira que pode.

Ela vai conquistando seu espaço na família, e na vida pessoal de cada pessoa. Vai se soltando e mostrando mais de si mesmas. Mas como toda pessoa, Helena também esconde segredos.

"Alguns segundos antes era sincera a melancolia que lhe ensombrava o rosto. Agora regressara à jovialidade de costume. Dissera-se que a alma da moça era uma espécie de comediante que recebera da natureza ou da fortuna, ou talvez de ambas, um papel que a obrigava a mudar continuamente de vestuário" Página 32.

Até agora, depois de mais de um ano e meio de Projeto Machado de Assis, esse foi o livro que eu mais gostei de ter lido! Pelo menos dos que foram escritos pelo Machado de Assis. É a primeira vez que gosto tanto de algo que ele escreveu. Isso por que Helena é um livro, com uma protagonista mulher, que não coloca a mulher em posição de submissão.

Helena é obediente aos mais velhos e tenta agradar todo mundo, mas também sabe se impôr quando percebe que é necessário. Helena luta pelo bem daqueles que ela ama com muita devoção, como se ela dependesse de cada pessoa para continuar viva. Os momentos finais do livro me emocionaram de maneiras indescritíveis, e me surpreenderam muito também.

"O desespero comprimido tumultuava no coração, prestes a irromper" Página 60.

Um dos motivos que me levou a gostar muito do livro é que o final é realmente surpreendente, em momento algum da leitura eu pensei que aquilo fosse acontecer. É um livro muito bem escrito, e para os que gostam de romance de época com personagens masculinas fortes, esse livro é pra você!

"Não são idéias, são sentimentos. Não se aprendem; trazem-se no coração" Página 25.

A escrita do Machado de Assis está impecável nesse livro, mais perto do que Dom Casmurro é. Pra mim, até agora, foi a leitura em que Machado de Assis esteve mais maduro. Já li 2 décadas (20 ANOS) de escritos do Machado de Assis, e com certeza, se for pra eu te recomendar a melhor leitura até agora, vai ser essa. Você que gosta de livros com personagens femininas fortes não pode perder!







domingo, 24 de novembro de 2019

Leitura todo dia #122

Outra semana de Leitura todo dia! Está saindo bem atrasado, mas vou normalizar isso em dezembro, prometo! É que, por causa da semana de resenhas dos livros do Machado de Assis, eu não consegui postar antes. Mas aqui está, e em breve vai sair o da terceira semana de novembro! Minha meta é ler o máximo de A Cor Púrpura, da Alice Walker, e de No Seu Pescoço, da Chimamanda.

Como sempre, a meta é ler 35 páginas por dia. Como a semana começa no dia 09/11 e termina no dia 15/11, a meta semanal é ler 245 páginas. Vamos lá!













No dia nove eu li 36 páginas (quatro capítulos e meio) de O Iluminado e concluí a leitura. Que puta livro! Assim, não vou dizer que se tornou meu livro favorito, por que It segue invicto, mas com certeza é o segundo favorito. Esse livro é bom demais pra ser verdade, sabe? Muito bem escrito, o horror psicológico que deixa o leitor doido, com medo, levemente paranoico. O hotel, enquanto personagem mesmo, é uma coisa horripilante e com certeza é o mais interessante do livro. Já tem vídeo pra esse livro lá no canal, vou deixar ele aqui pra quem quiser assistir!



E li 21 páginas (um conto) de No Seu Pescoço, o conto chamado Réplica. É um conto muito forte e bem diferente do que eu esperava. Fala sobre a vida de uma mulher que é casada com um amante de arte africana. Ela mora nos Estados Unidos e ele na Nigéria, por causa do trabalho. E sempre que ele volta, trás algo da cultura nigeriana. Só que ela recebe uma ligação, de uma amiga, avisando que seu marido colocou uma amante dentro da casa deles, e o conto se desenvolve a partir daí. É muito interessante ver um pouco do dia-a-dia de um casal nigeriano, principalmente com o fato de que eles passam a maior parte do ano separados, e de que ele é infiel.




No dia dez eu não li nada. No dia onze eu li 11 páginas de A Cor Púrpura. Comecei o livro agora e é bem diferente do que eu esperava. Ele é contado através de cartas, e já nas primeiras páginas trás uma coisa bem forte. A protagonista é uma mulher negra, e é estuprada constantemente por seu pai, e até teve filhos com ele. É uma coisa muito... sei lá, forte. Principalmente pra mim, que sou uma mulher negra. Li pouco por que achei forte demais pra ler antes de dormir.


No dia doze eu li 67 páginas de A Cor Púrpura. Aproveito sempre os dias de estágio pra ler. Faço estágio de observação, e como a professora não me cobra que eu realize de fato alguma atividade, eu sempre fico só observando a aula mesmo. E aí, nos dias em que os alunos apenas estão fazendo atividades, eu aproveito pra ler. Consegui ler bastante nesse dia, e fico feliz por isso! Tudo que posso dizer sobre a história é que Celie, a protagonista, se casou com um homem tão machista quando seu pai, tem que cuidar dos filhos que esse marido teve com a ex-esposa, e passa o dia trabalhando na roça enquanto o marido fica em casa. Ela foi ensinada a sempre obedecer os homens, então ela segue fazendo isso. 


No dia treze não teve leitura. No dia quatorze eu li 14 páginas (um conto) de No Seu Pescoço. O conto se chama Uma Experiência Privada e é um diálogo entre duas mulheres que estão presas numa loja. Lá fora, as pessoas estão enlouquecidas matando umas às outras, e as duas estão tentando se proteger da multidão. É um conto interessante, mostra bastante as diferenças culturais que a religião implica na vida das pessoas. Uma das mulheres é cristã e a outra é muçulmana.



No dia quinze eu li 59 páginas de A Cor Púrpura. Não vou falar mais sobre a história em si, mas sobre meus sentimentos lendo o livro. É um constante sentimento de raiva, de vários personagens. Obviamente os personagens masculinos são odiosos, nem tanto por si próprios, mas por que foram criados numa cultura machista que ensinou que pra ser homem eles precisam bater em suas mulheres. Isso me deu raiva, e obviamente é uma raiva que a autora quis provocar no leitor. O objetivo do livro é ficar revoltada com a injustiça. E também mostra muito racismo, e até mesmo falas racistas entre os próprios negros. Uma mulher bem escura aparece na história, e por mais que todos desejem ela, ninguém assume ela por que ela é muito escura. E tipo, homens negros não quererem assumir mulheres negras é um problema antigo, o livro mostra bem isso, e continua sendo assim. Hoje acontece menos, mas ainda acontece muito.

O livro fala sobre problemas estruturais que devem ser discutidos sempre, tanto sobre machismo quanto sobre racismo. Então assim, se você é mulher, se você é uma pessoa preta, ou se você é uma mulher preta, leia. Creio que pessoas racializadas no geral vão conseguir se identificar, num geral, mas como o livro é especificamente sobre negritude, recomendo que todos os negros leiam. Além de que isso divulga o belíssimo trabalho de uma escritora negra maravilhosa, Alice Walker.




Consegui ler 208 páginas nessa semana, o que dá uma média diária de 29,7 páginas lidas. Não consegui alcançar a meta, mas consegui concluir um livro do Stephen King, maravilhoso, rei do terror e melhor escritor do gênero. E também dei andamento à duas leituras de mulheres negras! Então tá super valendo a pena.


O Iluminado - 36 páginas lidas Concluído
A Cor Púrpura - 137 páginas lidas
No Seu Pescoço - 35 páginas lidas



quinta-feira, 21 de novembro de 2019

Resenha: Americanas, de Machado de Assis


























Título: Americanas
Autor: Machado de Assis
Editora: Domínio Público
Ano de publicação no Brasil: 1875
Número de páginas: 57
Onde encontrar: Machado de Assis (MEC) / Skoob
Nota: 4 / 5


Americanas é um livro de poesia do Machado de Assis. O tema geral das poesias é catequização indígena. Tem algumas poesias sobre negritude também, mas a maioria é focada nos indígenas. Cito a catequização como tema principal, por que nas poesias existem pessoas rezando forçadamente, fazendo aquilo apenas pra ficar vivo. Só por saber disso, já é um livro que todos deveriam ler. Só não dei nota total por que achei um livro meio lento, mas isso é por causa da minha dificuldade mesmo em ler cantos.

Todos os poemas têm uma história pra contar, o que os torna cantos. Ou seja, poemas com histórias épicas (que são aquelas que geralmente envolvem viagem, batalhas e aventuras). E como vocês devem ter reparado, é AmericanAs, ou seja, o livro é sobre mulheres. O que o torna um livro ainda mais adequado ainda para ser lido. 

Machado de Assis é negro, o que significa que ele tem um ótimo lugar de fala para escrever sobre os efeitos da escravidão negra. E devo lembrar que Machado já nasceu livre, por ter algum dos pais branco, não sei ao certo se era o pai ou a mãe. Claro que isso não era muito um critério pra separar escravos de não-escravos, mas felizmente Machado não foi escravizado. Esse livro foi escrito antes da lei áurea, o que significa que os negros ainda eram escravizados com amparo da lei.
"O morrer cada dia uma morte sem nome"
Fragmento, Os semeadores
Provavelmente ele também tinha um contato próximo com indígenas, por que já apareceram nos livros anteriores de poesia, e não tem conteúdo ofensivo, mas preciso dizer que sim, o racismo é exposto no livro. E quero ressaltar isso, por que é totalmente diferente um negro escrever sobre negritude e um branco escrever sobre negritude, e isso é nítido nas palavras utilizadas. Assim como é muito diferente um negro escrever sobre indígenas, e um indígena escrever sobre indígenas, é claro que se fosse um indígena escrevendo as palavras escolhidas seriam outras. De qualquer forma, eu fico feliz por, finalmente, ver uma pessoa não-branca escrevendo sobre indígenas.


"E nada mais se viu flutuar nos ares; Que ele, bebendo as lágrimas que chora, Na noite entrou dos imortais pesares, E ela de todo mergulhou na aurora."
Fragmento, A última jornada

Iracema é um livro com uma personagem principal indígena, mas escrito por um político branco, então é óbvio que aquela coisa do branco que vem trazer o "mundo moderno" até Iracema é cultuada no livro como se fosse algo bom. Já em Americanas, mesmo sendo católico, Machado de Assis deixa bem claro que impedir os indígenas de cultuarem o seu sagrado, é uma forma de matá-los. E talvez ele tenha consciência disso, por que com os negros isso também aconteceu no Brasil, e inclusive continua acontecendo todos os dias. Preconceito racial existe, negros e indígenas sofrem todos os dias por adorarem o seu sagrado.

"Rico era o rosto branco; armas trazia"
Fragmento, Cantiga do rosto branco.

E o fato de as protagonistas dos poemas serem mulheres também é algo muito importante. E aqui vamos deixar claro que é um homem escrevendo sobre mulheres no século XIX, mas mesmo assim tem muita delicadeza e sutileza nas palavras. O livro trás o contraste entre mulheres que sofrem a todo momento, não apenas por serem mulher, mas por serem brancas, e mulheres que são adoradas pelo mesmo motivo.

Todos nós, que somos conscientes das questões étnico-raciais aqui no Brasil sabemos que existe uma coisa de, ou rebaixar tudo que não é branco, ou pegar alguma coisa específica daquela etnia e exaltar isso pra que todo o resto do preconceito fique escondido. Como por exemplo, falar que os indígenas possuem uma conexão com a natureza maravilhosa, que isso deve ser respeitado, que devemos aprender isso com os indígenas, mas sempre negar, a qualquer momento, que a miscigenação no Brasil surgiu do estupro de mulheres indígenas. Chamar de "foi pega no laço", o que na realidade é estupro.

"Inúmeras, no mar da eternidade, As gerações humanas vão caindo; Sobre elas vai lançando o esquecimento A pesada mortalha"
Fragmento, José Bonifácio.

No livro isso aparece bastante, mulheres sofrendo muito, sendo humilhadas, tendo que adorar um Deus que muitas vezes elas nem acreditam (ou acreditam de uma outra forma), mas sendo elogiadas por serem calmas, por serem bonitas, pela bunda grande, pelo cabelo exótico, pelos lábios grossos etc. E pra mim, mulher negra, é uma coisa muito doida ver que no século XIX (dezenove), Machado de Assis já expunha esse racismo nojento, e hoje ainda temos pessoas dizendo que racismo não existe, ou que brancos sofrem racismo.

Flor da roça nascida ao pé do rio, Otávio começou — talvez mais bela Que essas belezas cultas da cidade, Tão cobertas de jóias e de sedas, Oh! não me negues teu suave aroma!"
Fragmento, A flor do Embiruçu.

Enfim, é uma leitura necessária. É pesada, e creio que pra mulher indígenas vai ser uma leitura ainda mais pesada, por causa de tudo que envolve. Mas é um livro que realmente todos devemos ler, pra sermos mais conscientes. Principalmente conscientes de que as questões que nos afetam hoje, enquanto pessoas não-brancas, são as mesmas de 150 anos atrás. É chocante ver que, apesar de termos melhorado muito, pessoas racializadas terem começado a chegar nos lugares de destaque, a maioria dos problemas existem há séculos, e continuam aqui. Leia, principalmente se você gosta de leituras com História.


quarta-feira, 20 de novembro de 2019

Resenha: Ancestralidades



























Título: Ancestralidades
Autor: Vários
Editora: Venas Abiertas
Ano de publicação no Brasil: 2019
Número de páginas: 198
Onde encontrar: Skoob
Nota: 5 / 5


Ancestralidades é uma coletânea de contos e poesias com participação de 22 homens negros, publicado pela Venas Abiertas, a mesma editora que publicou o Raízes, que reúne 20 mulheres negras. Como é uma coletânea de homens negros, é óbvio que racismo vai ser o tema principal, e isso vai ser abordado de várias formas. Mas vai pra além disso também: fala sobre a vida na periferia.

Não vou conseguir falar muito sobre cada autor, apenas vou destacar alguns trechos que gostei, e comentar sobre eles. Começando com Bim Oyoko, a citação estará abaixo. Começando com o tema: violência policial ligada ao racismo. Todo mundo sabe que a polícia, a instituição, em todos os lugares do mundo, é racista. E assim, é algo realmente presente. Nos livros da Chimamanda, Nigeriana, você vê violência policial com pessoas de pele retinta.
"Não é que sejam todos canalhas, maspara os guetos, sirenes e fardas são sempre ameaça"


E é um tema que outros escritores, como Bruno Cardoso Mattos também trabalha em suas poesias. Quando mais escuro você for, mais duro será o racismo com você. Eu como pessoa negra de pele clara sei que o que eu passo não é nada em comparação ao que negros retintos passam todos os dias. Mas também sei que o racismo institucional mata desde o negro claro até o retinto.
"Para o dicionário,causaé uma razão ou um motivo que explica ou justifica um ato, acontecimento ou ação.A causa daquela morte foi a cor"


Carlos Melo também fala sobre isso, mas focando não somente no ato de matar/morrer, mas na dor que há por trás disso, e principalmente no medo que isso gera. O medo de sair à noite e não voltar pra casa. O medo de simplesmente ir na padaria, no fim da tarde, e não voltar nunca mais. E por causa desse medo, tem muita gente que desenvolve síndrome do pânico. Agora pensa, em quão ruim, cruel é o racismo, pra que faça com que a gente tenha medo de existir.
"Preta é a cor da favela,Na peleNa veste,E no saco, onde mais um irmão foi levado.O vermelho sangue também faz parte,Ele tá na calçada, no campo, mas também no asfalto.Na madrugada ando nas ruas de mãos para o alto,por que tenho medo do fardado noiado me fazermais um dos executados"


Eu amei o conto de Duan Kissonde. Eu não esperava gostar tanto de um conto assim, mas o autor desenvolveu o conto de uma forma tão boa, mesmo acontecendo coisas não muito agradáveis, flui de uma maneira tão gostosa. É aquele conto bem escrito que dá vontade de recomendar pra todo mundo, e é bem coisa do cotidiano.
"Augusto atravessou correndo. Sinal vermelho. Achou que dava tempo. Não dava mais"


Evanilton Gonçalves escreveu a citação que com certeza engloba todos os escritores. E pessoas que gostam de "viajar na maionese" no geral. Quem nunca ficou olhando pra uma pessoa e inventando toda uma história complexa do motivo de ela estar ali? Ou nunca se apaixonou no ônibus e começou a inventar seu futuro com aquela pessoa, mesmo não sabendo nem o nome dela? Essa citação aqueceu meu coração, quando li. Ele também é contista.
"Gosto de observar o passar das horas e das pessoas ao meu redor e o que não consigo ver, invento"


Felipe Nikito escreveu algo que me impactou profundamente. Acho que se você é um cristão consciente, em algum momento você já pensou nisso, mas a verdade é que muitos líderes religiosos não pregam o amor, e muitos pregam a intolerância. E é importante falar isso. Até dentro do cristianismo tem muita intolerância, e às vezes dentro da mesma religião, apenas por que são congregações diferentes, também tem intolerância rolando.
"Jesus Cristo ensinou,mas tem até uns pastor que não assimilouQue pra mudar esse mundosó mesmo com amorMuito amor"


E temos então Fellipe Beluca, falando muito da periferia. Ele é de um lugar que fica perto de onde eu moro, e eu acho tão gostoso ler poesia de quem tá perto de mim, por que a identificação acaba sendo maior. Ele participa de batalha de MCs então também é algo que tá sempre nas poesias dele, e que eu acho muito legal. Amo batalha de MCs, confesso que vou em poucas por que infelizmente o ambiente (maconha, bebida etc) em si não é do meu agrado, mas sempre que é pra prestigiar gente que conheço eu tento ir.
"MCs se matando em letras, meus manosmorrendo em tretas"


Franco Vandereste fala novamente da matança de gente preta. E principalmente da matança que vem pelo ódio. Vi numa entrevista da Clarice Lispector, que você pode ver clicando aqui, que se um tiro apenas já basta para matar, todos os tiros que vêm depois são pelo ódio. Agora para pra pensar, por que as pessoas são ensinadas a odiar gente preta? É simplesmente desumano o que o racismo faz.
"Na rua eu vejo o ódio no olho de genteque mata a gente com olho antes de matar com o pente"


Igor Chico escreve de uma forma tão poética, linda, sensível. Cada frase daria uma linda tatuagem. É algo bem intimista, e não necessariamente sobre negritude, mas passa sim por esse tema. Eu não consigo nem descrever o quão gostosa é a escrita dele, mas deixo aqui um trecho simplesmente lindo pra vocês apreciarem essa obra de arte.
"aceitar que há mais buracos em mimdo que na camada de ozônio"


Jessé Cabral fala sobre a vida dele, e claro que isso envolve ser um homem negro, mas também é algo mais pessoal. Ele não está falando do coletivo, ele está falando de experiências que ele viveu estando dentro desse belíssimo coletivo que é a negritude.
"Nem em mim cabem tudo que vi existir"


E depois vem Jô Pinto, que é o mais diferente do livro, e talvez até destoe um pouco do resto. Isso por que a vivência dele é muito diferente, já que ele viveu/vive numa reserva quilombola. É muito interessante ter tantos pontos de vista dentro do livro, e ele trás um viés bem religioso sobre a negritude, pelo ponto de vista cristão católico. Eu gostei por que mostra a devoção que cada pessoa tem o direito de ter sobre qualquer santo, seja ele o santo da igreja católica ou o santo do candomblé, ou até mesmo os dois.
"Rainha dos homens pretos!Mãe, mãezinha, "Senhora do RosárioSua casa cheira, cheira cravoe flor de laranjeira"


José Falero fala do submundo que é a periferia. Geralmente os lugares chamados de submundo são lugares onde as pessoas marginalizadas estão, e tentam sobreviver de alguma forma. O que é a descrição do que acontece na favela. E claro, playboy nenhum sobreviveria uma semana na favela. Pressão demais pra quem não é criado nela.
"As nossas grandes cidades também possuem profundezas onde nem todos conseguem ir, porque não aguentariam a pressão. Essas profundezas são conhecidas como 'periferias'"


Kadosh Miranda falou de coisas que me emocionaram. Falou de natureza. Para quem não sabe, religiões afro-brasileiras prestam culto à natureza, orientados por espíritos, então ler sobre a natureza dessa forma, e enfatizando que isso sim está matando muito mais do que nós humanos, que tá matando os animais e as plantas, e que esses elementos são coisas sagradas, pra mim não tem preço. Quero deixar linkado aqui o vídeo que Pérola D'Iemanjá fez sobre a poluição do mar, e sobre como nós também somos responsáveis por isso. Claro que grandes empresas poluem muito mais, e por motivos diferentes, mas temos que nos sentir responsáveis também.
"Cadê saci? Caboclo D'água?Minério de ferro na nossa água!Eles matam rios e jorram a praga,Cadê o canto de Iara?"


Agora vamos para um assunto muito importante. Kuma França fala sobre como a polícia e os "cidadãos de bem" agem para matar a negritude. Na mão de um homem negro, até copo vira arma, vira fuzil, vira bazuca. Uma mulher preta e pobre nunca pode ter direito ao aborto seguro, mas uma mulher rica e branca, pode abortar confortavelmente em grandes hospitais e nunca vai ser condenada por isso. A injustiça tá em todos os lugares, a gente só precisa abrir os olhos pra isso.
"Natural confundir um caderno com um fuzilOh, Pátria armada BrasilQue se preocupa tanto com as crianças "abortadas"esquecendo das nascidas, abandonadas"


Leandro Zerê é o grande amor da minha vida. Eu já vi ele recitando a poesia OGUM várias vezes e me emocionei lendo ela. E quero falar aqui sobre a experiência linda que é você ler uma poesia com a voz da pessoa recitando na sua cabeça, é totalmente diferente de apenas ler. Favela é resistência, muita coisa incrível sai daqui, e a gente, enquanto pessoas pretas, temos que estudar e trabalhar mesmo, buscar novos horizontes, dar o troco de tudo que a gente passou e continua passando.
"Fogo na Casa Grande! Traz o Sinhô pro tronco!Pois só assim vão entender que Favela não é Senzala!FAVELA É QUILOMBO!"


Ojû trás novamente a revolta por ver preto morrendo todos os dias. E sempre importante lembrar que a cada 23 minutos morre um jovem negro. Não importa o que esteja acontecendo politicamente no Brasil, e não importa muito a sua situação econômica, se você for preto, seu sofrimento sempre vai ser o triplo. A culpa de tudo vai cair em você. E se você for de religião afro-brasileira, ainda vão ter a cara de pau de dizer que são seus demônios que estão fazendo mal ao Brasil, e que é por causa disso que negros morrem mais. E sim, já ouvi isso. Tem gente que é doente.
"Nem sempre o corretivo é justo...Nem sempre a borracha apaga...Isso não acaba.Acho que você já sabe quem paga"


Rafael Moyses trás a discussão sobre loucura e sanidade. Muita gente acha loucura preto, pobre e favelado achar que vai mudar a estrutura do país, mas essas mesmas pessoas tão sendo caladas todos os dias, vendo pretos vencerem e passarem por cima de muito racismo. E claro, a gente ainda tem que melhorar muito, alguns pretos vencerem não significa que todos venceram, pra um subir, 100 morrem. Mas fico feliz em saber que a nossa loucura em resistir têm dado frutos, mesmo que ainda sejam poucos.
"A sanidade decapita o homemSofrida letra em negra tintaFlorida voz em boca desnutrida"


Rômulo Marcolino fala sobre o medo de não voltar pra casa, que falei anteriormente. O medo não vem somente da pessoa preta que tá na rua, mas também das mães que ficam em casa esperando seus filhos chegarem. Dos companheiros que ficam em casa, dos filhos. Infelizmente ser racializado no Brasil, causa medo. A nossa existência incomoda, e por isso, a cada 23 minutos morre um jovem negro.
"...quase todas as mães dormem, aguardando ouvir sinais dos filhos chegarem bem em casa. Por isso faço um barulho com as chaves e nas panelas, mamãe responde com um tossido"


Tarciso Manfreatti trás referências literárias! Claro, todos trazem muitas referências e em muitos poemas e contos isso fica claro, mas quero citar aqui por que é sobre Macunaíma, um livro que eu quero muito ler, e devo dizer que depois de ler isso em Ancestralidades, isso aumentou minha vontade. E aproveitando o assunto, o livro é ótimo pra pegar referências, e então se você gosta da cultura hip-hop, Ancestralidades é um ótimo livro pra ler.
"É como se eu fosse Macunaíma entrando no rio, aquelas roupas lavavam meu 'pretume'"


Thiago Amepreta fala sobre como tudo que vem de preto não é bem aceito socialmente. Poesia de branco, que escreveu sentado em sua varanda, em sua belíssima cobertura que fica no centro da cidade é algo belo, arte contemporânea. Então por que a poesia de preto, escrita no barro, num canto da favela, não é vista da mesma forma? Por isso a gente que é preto tem que consumir muita coisa preta MESMO! É nós por nós, e a gente só vai pra frente se rolar apoio.
"eu (negra) poesiatu (negra) poesiaele (negra) poesianós (negras) poesiasvós (negras) poesiaseles (negam) poesia"


Tônio Caetano escreve de forma tão doce e violenta ao mesmo tempo. O tema do conto em si é violento, é aquela coisa que rasga coração mesmo, mas ao mesmo tempo, a doçura e a leveza que as palavras trazem é surreal. O trecho abaixo fala de violência, mas olhem como é bonito de ler, aquele tipo de frase que a gente leva pra vida toda.
"Pegou meu menino pelos encaracolados como se eu não estivesse ali, como se eu não tivesse pés de cruzar mundo, braços de manter casa em pé"


Ygor Peniche fecha falando sobre uma coisa que já vem sendo estudada há décadas, mas que muitas pessoas ainda negam: capitalismo não está se importando com pessoas, se importa com o dinheiro dessas pessoas. Então se a forma de ganhar dinheiro for te divertindo, te fazendo ter mais acesso à cultura, ou te entupindo de remédios que funcionam menos que placebo, tanto faz. Capitalismo não se importa com sua vida, se importa com a quantidade de dinheiro que você gasta ou investe nela. Apenas isso.
"No capitalismo, a escola não forma pessoas - apenas profissionais"

Fica aqui a recomendação. Leiam Ancestralidades. Leiam gente preta.

segunda-feira, 18 de novembro de 2019

Leitura todo dia #121



Mais um belíssimo post de Leitura todo dia, projeto criado pela Nine Stecanella, com o objetivo de incentivar o hábito da leitura. Minha meta pessoal para esse projeto é ler 35 páginas diárias, como essa semana começa no dia 01/11 (sexta-feira) e vai até o dia 08/11 (sexta-feira), a minha meta é ler 280 páginas. Pretendo ler O Iluminado, do Stephen King, e No Seu Pescoço, da Chimamanda.












No dia primeiro de novembro eu li 20 páginas (um capítulo) de O Iluminado. Pra quem ainda não sabe, estou gravando um diário de leitura e resenha pra esse livro, então não vou falar muito dele aqui no blog. Quem quiser ver, é só clicar nesse link aqui, e vai ser redirecionado pro meu canal!



No dia dois não teve leitura. No dia três eu li 45 páginas (nove capítulos) de O Iluminado. Eu percebi que quando eu fico um dia sem ler, no dia seguinte eu consigo ler um pouco mais. Mas mesmo assim, não chegou na meta, ne? Eu faço o possível pra isso não me abater. Em alguns dias alcançar a meta é algo muito importante, em outros, o importante é ler até onde eu quero.



No dia quatro eu li 30 páginas (quatro capítulos e meio) de O Iluminado. Estou gostando muito do livro. O terror do Stephen King é o melhor que já li até hoje. Sei que eu não tenho muitos livros de terror, mas assim, na minha vida eu devo ter lido uns 25, então acho que tá bom pra comparação. Inclusive preciso ler mais livros de terror e horror, né? Mesmo assim, não achei até hoje um escritor que passasse tanto o terror real pro leitor. Ele mexe no psicológico de uma forma...



No dia cinco eu li 27 páginas (quatro capítulos e meio) de O Iluminado. Li durante o estágio. Gente, estágio de observação é ótimo pra colocar leituras em dia, toda vez que vou, eu faço isso. Por que assim, dificilmente as pessoas me pedem ajuda pra algo, a professora também me deixa bem livre pra fazer o que quiser, então eu fico lendo mesmo.



No dia seis eu li 20 páginas (dois capítulos) de O Iluminado. E algo que preciso dizer é: se você tem medo de espíritos, não leia esse livro! É espírito pra todos os lados, gente falando com espírito, espírito querendo matar, gente lutando contra espírito, espírito respondendo mensagens, todo mundo achando que tá ficando doido. E o terror do livro é inteiro construído em cima disso, é bem pesado e não recomendo pra pessoas sensíveis.



No dia sete eu li 65 páginas de O Iluminado. No dia oito eu li 12 páginas (três capítulos e meio) de O Iluminado. E li 28 páginas (um conto) de No Seu Pescoço, da Chimamanda Ngozi Adiche. Foi uma leitura incrível, um conto sobre violência, no geral. Do meio pro final, o conto se foca em violência policial. E é um livro muito interessante pra ler, por que a violência policial no Brasil, e a violência policial na Nigéria acontecem de formas diferentes, apesar de ainda sim terem o racismo como base. Já sou apaixonada pelas palestras da Chimamanda, e espero me apaixonar pela escrita também, por que já amei esse conto.




Na primeira semana de novembro eu li 247 páginas no total, 30,8 páginas por dia. Isso significa que não alcancei minha meta, mas consegui dar prosseguimento no livro que está no desafio de 12 livros para 2019 de outubro, que é O Iluminado. Eu acabei me enrolando nas leituras "obrigatórias" dos últimos 3 meses, mas tudo vai seguir como planejado. Já estou quase concluindo essa leitura, e creio que não vou demorar pra começar a ler Quincas Borba, que é o livro de novembro. Enfim, não vou dizer que estou super contente, mas como li livros incríveis, não posso dizer que estou triste. Estou levemente feliz e satisfeita com minhas leituras!


O Iluminado - 154 páginas lidas
No Seu Pescoço - 28 páginas lidas